fullsizerender-23Tenho tanta tanta tanta coisa bacana para escrever que me peguei no bloqueio de não saber por onde começar. Tava bem mais para dentro que pra fora esses dias e deixei acumular muitos satsangs, novidades e sincronicidades sem compartilhar por aqui. Aí decidi vir agora à noite para o ‘meu’ escritório aqui em Rishikesh. Essa foto é de agorinha, à meia luz de mais de meia noite.

… Pausa para uma observação importante: Na boa, achava que vinha pra umas férias e aconteceu o oposto. Há muito tempo que não trabalhava tanto na vida, tá óótemo! A agenda aqui funciona de domingo a domingo. Acordo cedinho, me alimento, me exercito e venho para o Welcome Center, que fica a um lance de escada do meu quarto, no rooftop do hotel onde estou hospedada (gracias, flow). Saio para o Ashram no meio da manhã, faço as boas vindas e os anúncios ao público antes de o Prem Baba começar a fala dele. Almoço perto de 14h e à tarde tenho feito gravações da comunicação global do Baba (óia que chique). Acabou? Nahīmn! À noite tenho aulas de hindi. Já consigo até captar pedaços de conversas no ar. Fim da pausa …

Voltemos ao meu escritório nesta noite para tentar escrever alguma coisa… Estava relendo as anotações do satsang. Pensei: vou escrever sobre a não violência do feminino e do masculino, que é a chave para resolver os relacionamentos todos. Ou sobre como aquietar os pensamentos de forma imediata. Ou sobre a anatomia sutil que rege as doenças psicológicas e físicas. Ou sobre a causa raíz da depressão e da ansiedade e como se reencaixar dentro da gente. Ou sobre como encontrar o propósito da vida e acordar feliz pra ir trabalhar. Ou sobre como dominar uma compulsão. Ou sobre permanência e impermanência, que é o que faz a gente ficar identificado com o ego e não com a essência. Ou sobre como prender nosso próprio desenvolvimento é absurdamente mais trabalhoso do que simplesmente soltá-lo…

Tão percebendo como tem sido do grande car**** essa minha vivência aqui? São anos e anos do mais refinado aprendizado em alguns meses. Bão dimais da conta, sô!

Aline, volta ao escritório!
Ok.

Enquanto relia as anotações, um barulho na porta de vidro. Uma mulher. Eu, de longe, desde a minha mesa, fiz uma cara feia e um gesto querendo dizer: “pô, tá fechado. Só abre amanhã cedo. Não enche”. A mulher não me enxergava bem do lado de fora e tentou abrir a porta. Tava com cadeado. Levantei. Saco! Eram duas mulheres, queriam falar com alguém da organização. Percebi que algo não estava bem. Abro a porta e descubro que as duas haviam chegado hoje à Índia, uma delas entrou em crise de pânico. A amiga que estava bem sugeriu à outra que falasse com alguém daqui antes de remarcar a passagem de volta para amanhã. Aí eu chego na história.

A moça que não estava bem entra, tranco a porta novamente (porque há macacos do djanho aqui que invadem os ambientes — sério mesmo). Pergunto o que está acontecendo. A resposta vem num combo: relacionamento com o namorado, propósito de trabalho, transtorno de ansiedade, sensação de desencaixe, mente agitada, remédio tarja preta… Resumo da história em uma palavra: medo.

Conversamos. Falei da minha chegada, da tensão que senti ao andar nas ruas em Déli, dos dez dias em que meu intestino não funcionou (ayurveda, gracias por existir), dos mitos sobre a Índia, de onde comer pizza por aqui, da sujeira, das buzinas, das belezas, do primeiro dia estranhíssimo da minha experiência sem café (vai ter um post especial sobre isso. ah vai); ela relatou a forma mirabolante que veio parar aqui e contou um pouco do processo dela.

Pedi permissão e fiz uma aplicação de reiki. Senti que ali tinha uma força extraordinária desabrochando… Em alguns minutos, estava eu no quarto dela, levando um chá forte de camomila com mel, uma banana, um abraço apertado e um até amanhã.

Experienciei num instante tudo o que havia acabado de estudar: a paz de quem conseguiu sair do amanhã para vir para o agora, de quem saiu da identificação da impermanente “nuvem” e se lembrou que era o “céu”, de quem sentiu que deixar livre é infinitamente menos trabalhoso do que prender, de quem se deu conta de que quando as coisas não estão indo bem o que se tem que fazer é: “nada!”.

Parar, respirar, observar que parte da gente é que está esperneando e por que; rir das cagadas (ou da falta delas), pedir ajuda, tomar um chá com mel, um banho quente, ouvir música, cantar. Sentir o amor em movimento. Às vezes, pelas mãos de uma pessoa ainda totalmente desconhecida.

Posso dizer… ao abrir a porta e o coração, quem foi inundada de amor fui eu. 

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O satsang de hoje foi sobre amor e liberdade, tema do penúltimo livro do Prem Baba. Ele foi indagado sobre uma frase dele que é fácil de entender, mas difícil de aplicar: “amar é deixar o outro livre, inclusive para não te amar”. Oh god.
 
Vamos lá que vou tentar passar adiante o que compreendi da mensagem dele e que, há tempos, acredito ser bastante pertinente. Se a vida é uma escola, os relacionamentos são a universidade. Neles é que encontramos maturidade para aprender sobre os mistérios da vida.
 
O problema é que quando nos relacionamos temos a tendência, mesmo que inconsciente, de tentar controlar o outro, de fazê-lo pensar como a gente, de esperar que ele atenda às nossas expectativas… resumindo, temos a ilusão de que é possível fazer algo para que o outro nos ame.
Dependendo dos referenciais que tivemos (na infância, nas experiências passadas etc), podemos adotar diferentes estratégias para isso. Se aprendemos que conseguiremos amor sendo vítimas, ou seja, nos rastejando, nos colocando como dependentes do outro, agindo como se sem o outro não existisse vida…, nos especializamos nessa habilidade. Se aprendemos que o melhor é sermos distantes, indiferentes, controladores… nos tornamos experts nisso e passamos a vida agindo assim. Esses são apenas dois exemplos das inúmeras estratégias de sedução que existem; estratégias para buscar controlar o que o outro sente por nós.
 
A grande maluquice disso tudo é que esse outro na verdade não existe.
WTF, Aline?!?
Calma, explico.
 
1. Existe o outro.
2. Existe a imagem que construímos do outro.
Sem muito autotrabalho, enxergamos e nos relacionamos apenas com o aspecto número 2.
 
Enxergamos o outro a partir da imagem que atribuímos a ele. Essa imagem é uma projeção da nossa mente. Ou seja, a pessoa que idealizamos foi criada por nós mesmos. Essa ilusão é fruto da nossa carência afetiva e, inevitavelmente, gera sofrimento porque com certeza absoluta as nossas expectativas não serão atendidas.
 
A tendência que temos é de nos conectamos com pessoas que representam a parte ferida de nós mesmos. Elas nos mostram o que dentro da gente ainda é preciso ser trabalhado; os padrões que repetimos, os vícios que carregamos etc. Nessa lógica, se eu, por exemplo, tenho a expectativa num relacionamento de proteger alguém, quem será na verdade que estou tentando proteger?
 
Vamos supor que nessa altura você esteja pensando:
Eita, Aline. Esse texto tá complicado… Mas vamos supor que eu tenha entendido alguma coisa, tipo que o outro é uma projeção de um eu ferido que eu estou tentando salvar e tal, aí crio expectativas em cima dessa pessoa, cobro o amor dela, prendo ela no pé da cama, sinto ciúmes, quero que ela aja conforme minhas expectativas… O que é que eu faço com toda essa M???
 
Tenho duas notícias em relação a isso, uma boa e uma ruim. A ruim é que é bastante trabalhoso mesmo romper com padrões destrutivos como esses. A boa é que sim é possível cessar com esse ciclo vicioso. Terapia, coaching, auto-observação certamente podem ajudar.
 
O importante nesse trabalho é enxergar qual parte de você está tão desesperadamente querendo salvar o outro. E se esse outro é uma manifestação de uma projeção sua, que parte é essa em você que foi esquecida e que precisa de uma outra pessoa para se completar? Isso é muito importante.
 
Quando tomamos consciência dessas partes negadas de nós, temos a oportunidade de nos reintegrarmos, de sermos um novamente; indivisíveis. Ao sustentarmos a presença nisso, não temos mais a necessidade de escravizar o outro, porque já nos sentimos completos.
 
Assim, tomamos consciência de que um relacionamento é o exato reflexo da natureza: podemos plantar uma semente, cuidar, amar, regar, mas não podemos forçar o florescimento. E, caso a semente resolva não florescer, não há nada que possamos fazer a respeito, apenas aceitar.
 
A grande beleza disso tudo é que quando aceitamos o outro como um ser livre, na verdade, nós é que nos tornamos livres.
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Desde que pisei no Ashram do Maharaj, guru do Prem Baba, senti uma vontade muito grande de ajudar com o que quer que fosse. Havia ali um magnetismo inexplicável de amor (tipo de coisa que só indo mesmo pra saber). Havia também muito trabalho a ser feito antes da chegada de centenas de pessoas para a temporada que começa amanhã.

Nos primeiros dias, apenas eu, a Andréa e o Mikaël, que é do staff, ficamos responsáveis pela preparação de todo o salão. Foram quatro dias agachada, tirando tinta e gesso do piso, fullsizerender-15com uma espátula improvisada.

Pode parecer estranho eu dizer que enquanto fazia isso estava absolutamente feliz. A sensação era a de que ao limpar cuidadosamente o chão, arrancava também com carinho a craca toda do meu coração.

Nos dias seguintes, mais gente foi chegando. Ao meu lado, uma professora de yoga, um ator da globo, uma coach, duas crianças alemãs, um austríaco casado com uma paranaense, uma chinesa, um inglês, um francês casado com uma americana. Todos iguais, trabalhando pesado com o semblante leve. Voltava para o hotel com o corpo exausto, mas com a mente limpa para receber insights poderosos.

O nome disso é Seva, serviço em sânscrito. Também chamado de Karma Yoga. Esse tipo de trabalho voluntário a uma causa, um mestre, um propósito, cura feridas profundas que a gente às vezes nem se dá conta de que tem.

Agora, faço parte do Welcome Center junto com uma argentina, uma alemã e um americano. Somos responsáveis por acolher quem chega de todas as partes do planeta para os satsangs. Além de conhecer todo mundo e receber muitos sorrisos de presente, estou exercitando deliciosamente os meus idiomas. No sábado, começo aulas particulares para aprender meu sexto: hindi.

Acho graça disso tudo ao pensar que a ideia inicial era só ficar uns dias de bobeira em Rishikesh, curtindo a cidade. Enxergo claramente aqui todos os dias que quando se tem “ideias iniciais” vem o universo e ri da sua cara.

Já sou um ser humano melhor. E ainda tem toda a temporada pela frente. Continue me surpreendendo, Índia. Eu deixo.

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img_5992Foi a festa mais impressionante da minha vida. Imagine você ter a oportunidade de ir a um riquíssimo casamento tradicional indiano em Jaipur, a cidade rosa, a cidade do amor.

fullsizerender-12No ano retrasado, tive a sorte de ganhar um irmão mais novo indiano, Naman Jain. Ele viveu um ano de intercâmbio no Brasil, como filho dos meus pais. Como boa sis, eu fiquei responsável por coisas que teoricamente ele não poderia fazer sozinho, como comprar álcool, além de explicar sobre como ser discreto, sobre relacionamentos e dividir com ele minha visão de mundo. Creio que tive alguma influência, já que ontem descobri que ele meio que chocou a família logo que voltou do Brasil, ao comunicar que queria estudar jornalismo, relações internacionais, psicologia, que iria viajar o mundo e não pretendia se casar.

Pois bem, ontem quebramos mais algumas regras ao ficarmos abraçados por uns cinco minutos no aeroporto e andarmos grudados e de mãos dadas por todo lugar.

Desde o Brasil, a gente matutava sobre como se encontrar, já que ele está naqueles dois anos finais da escola, perto das provas para as universidades; mora no sul, eu estou morando no norte e a Índia é gigante. Foi quando surgiu a ideia de eu acompanhar a família dele no casamento de uma prima numa cidade no meio do caminho para nós. Uau.

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Impressões: a família é imensa, todo mundo é meio que primo. O casamento foi enorme, deslumbrante e cheio de música, flores, luzes, cores, drones e ouro; custou fácil uns dois bons apartamentos. Não há bebida alcoólica, mas, na boa, todo mundo chegou bêbado lá. Até a gente parou pra comprar vinho antes da festa (oba! estava numa baita abstinência porque há regiões na Índia onde álcool é proibido, a minha é uma delas). Havia toneladas de comida ignorantemente deliciosa de todas as partes de mundo. Eram cerca de 40 tendas com pratos diferentes preparados na hora, na nossa frente, servidos em pequenas porções. Experimentei de tudo e saí rolando, me sentindo uma pamonha amarrada no sari.

fullsizerender-14Ah, o sari! Nunca me senti tão linda. Sem exageros. Devo ter vivido muito nessas roupas lá pra trás. Fui preparada para o casamento pela avó, uma tia, uma prima e a mãe do Naman. A mamis dizia a todo o tempo que se sentia vestindo uma filha (ela só teve dois rapazes gatos). Como primogênita, ela é a responsável pela amarração da roupa da família, é a que mais manja dos paranauês. O sari não é um vestido, são metros e metros de um tecido finíssimo, bordado a mão com pedras e brilhos. A regra é: se você está respirando, está largo. Por incrível que pareça, me dei bem com o aperto, mesmo sendo uma cinestésica muito crica com conforto. Deve ser porque eu tava me sentindo toda deusa ;)

Jóias e mais jóias, uma aula básica de boas maneiras com a roupa (não tive coragem de fazer xixi o casório todo – e olha que faço muito xixi) e partimos prontos para o deslumbre. Uau. Uau. Uau. Na saída, ao devolver as joias emprestadas, descobri que algumas delas eram minhas. O sari também. Chorei. No hotel, não queria tirar a roupa nem pra tomar banho.

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Como viver o mundo é sensacional. Como é bom amar pessoas em cada lugar. Meu irmão, a gratidão não cabe em mim. Repito a frase mais falada da noite por nós dois: que bom você pertinho, amo muito você.

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fullsizerender-7O dia começou com uma proposta interessante, subir os Himalaias de moto, passando por três lugares sagrados. Mas, como vocês bem estão acompanhando, aqui as coisas surrealmente só melhoram. Aluguei a moto com o Mohan, um indiano natural de Rishikesh que é casado com a linda Rebeca. Eles passam metade do ano aqui a outra em Curitiba. Conhecem as melhores coisas, lugares e pessoas da Índia.

Coloquei a Andrea na garupa e seguimos pelo trânsito insano da cidade até a estrada das montanhas. Primeira parada: pés dos Himalaias, beira do Ganges, uma caverna onde um homem santo se iluminou. Entrar lá é entrar em meditação instantemente. Comecei a ouvir todo o meu corpo, ouvi o som do silêncio. Saí e me sentei perto do rio. Entendo o homem santo que preferiu a caverna, mas meu lugar é sempre sob o sol, perto da água e do ar. Que beleza de rio. Estou completamente apaixonada pela Ganga.

Seguimos para cima. Estradinha cheia de curvas, macacos, vacas, sustos, gargalhadas, e vista ignorantemente fodástica. Chegamos ao primeiro Baba do dia. Ele é um sadhu, um homem que abriu mão da matéria para se dedicar à devoção. Ele cuida de um pequenino templo a Shiva, local onde também dorme e se alimenta. É um paraíso cheio de flores, pássaros e um gramado tão bem cuidado e varrido que se confunde com um tapete de luxo. Ao chegar lá, um grupo da comunidade estava no meio de uma cerimônia de três dias, entonando mantras em jejum, sem sair de lá, dormindo num alojamento improvisado. Participamos do Arathi, uma cerimônia linda, feita ao nascer do sol, ao meio dia e ao pôr do sol, com flores, fogo, incenso e oferendas (pujas). img_5612Abençoados ali, preparamos nosso almoço na pequena cozinha do Baba, um arroz indiano de lamber os beiços e as mãos. Quando terminamos, uma senhora da montanha de 85 anos, nos levou para uma pequena caverna cheia de morcegos bem embaixo do templo. A velhinha tinha uma flexibilidade absurda para se encafifar naquele lugar. Fomos convidados para dormir no alojamento, mas seguimos Himalaias acima para encontrar no cume de uma montanha, outro Baba.

fullsizerender-5Esse segundo sadhu, amparado pela energia de Durga, mexeu com meu centro. Senti que ele tinha algo pra me dizer. Depois das bençãos (linhas amarradas nos pulsos com voltas de acordo com o feeling do cara, flores colocadas na cabeça e aqueles sinais na testa, geralmente feitos com cúrcuma – que há quem acha que é machucado na testa), pedi para o Mohan traduzir em hindi que eu gostaria que ele escrevesse de volta uma frase. Ah.. esse sadhu fez voto de silêncio e se comunica com a ajuda de um pequeno quadro negro e um giz. Ele segurou minha mão, olhou fixamente nos meus olhos por uns dois minutos, fez sons estranhos e começou a falar sobre a minha vida. Perguntou com o que eu trabalhava, falei que com algo parecido com psicologia (nem minha família entende direito o que eu faço, imagina ele), aí sou surpreendida com a frase no quadro “teacher. you are the best”. Depois ele escreve “boyfriend” no quadro e faz uma cara de interrogação. Eu digo que não, meio que não, não. Não. Ele solta uma gargalhada, continua falando coisas sobre meu pulso fino em contraste com minha força, meus desafios… e no final ele crava que eu certamente voltarei lá para vê-lo. Casada. Gargalho. Ainda tomamos um chá com o Baba antes de iniciarmos a descida congelante ao por do sol. Uau. Uau. Uau. Hipotermia no corpo e deslumbre sem limites por tudo o que coube em um dia. A aventura terminou comigo pilotando a moto à noite na estrada indiana, em mão inglesa, com farol apagado. Banho, sopa, risos, conversa boa com minha parceiraça, chá e boa noite.

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